Histórias que Ensinam Valores

Just another WordPress.com weblog

Histórias circulares – histórias sem fim

Para início de conversa, segue abaixo, sem muitas delongas, alguns exemplos de histórias que sempre me agradaram muito. Quando criança tive contatos com este fruto do folclore do norte de Minas Gerais e depois nunca mais encontrei-as. Recentemente, contudo, achei o que vai publicado abaixo. Leiam é muito interessante:

“Sobre  as histórias circulares

Lucciano Pacelli Palestrina nasceu no Piemont (Itália) e correu o mundo no início do século XX.

Enquanto viajava Palestrina foi recolhendo lendas, fábulas e casos populares que depois, sob a influência de amigos, decidiu publicar, juntamente com histórias de própria lavra.

As Histórias Circulares são as suas preferidas e foram curiosamente recolhidas em pontos diversos do mundo: Brasil, Ilhas Maldivas, Índias, etc. Onde teria nascido esta tradição? Como ela teria se dispersado e alcançado lugares tão distantes entre si? Estas questões espantaram Palestrina, que, no entanto desistiu de respondê-las, ficando apenas com o encanto que estes histórias circulares lhe causavam. Depois de recolher algumas delas e fazer com que fossem publicadas, Palestrina desenvolveu de próprio punho muito dessas curiosas histórias-sem-fim que encantam também as crianças.

A título de uma introdução às histórias circulares

O tempo circular que as histórias circulares pretendem ilustrar (e de alguma forma capturar) é uma fixação humana é foi incorporado a muitas cosmogonias nas mais diversas épocas e lugares. É fácil, pois, entender porque a tradição das histórias circulares tornou-se comum à cultura popular de muitos povos. Numa história circular o final sempre nos remete ao começo e algumas são simplesmente extraordinárias. Vejam alguns exemplos folclóricos:

O Caso do Siri

Na beirada do rio nasceu um coqueiro.

Debaixo do coqueiro mora hoje um siri.

Vocês conhecem o siri? Ele é primo da lagosta.

Num certo dia um coco caiu bem na cabeça do siri. Ele chorou, chorou, chorou…

Das lágrimas do siri formou-se um rio.

Na beirada do rio nasceu um coqueiro.

Debaixo do coqueiro mora hoje um siri.

Vocês conhecem o siri? Ele é primo da lagosta.

Num certo dia um coco caiu bem na cabeça do siri. Ele chorou, chorou, chorou…

Das lágrimas do siri formou-se um rio.

Na beirada do rio nasceu um coqueiro.

Debaixo do coqueiro mora hoje um siri.

Vocês conhecem o siri? Ele é primo da lagosta…

O contador destas histórias normalmente repete as palavras de forma exata e vai prosseguindo (“circulando”) até o ouvinte se perceber num redemoinho e reagir para sair dele. É hilariante.

A sonoridade destas curtas histórias-infinitas impressiona. Tanto o exemplo acima como os que seguem têm este efeito e foram recolhidos entre o sul da Bahia e o norte da província de Minas Gerais, nos confins do imenso Brasil:

Mangaba dá muito sono

Alguns viajantes, pais e muitos filhos, percorriam duros caminhos. Estavam todos cansados, quando encontraram em meio a uma floresta muitos pés de mangaba, carregados da deliciosa frutinha. Estavam também com muita fome, logo começaram a comer mangabas. Comeram mangaba, comeram mangaba, comeram mangaba… Todos sabem que mangaba dá muito sono, não é? Por isto mesmo, logo em seguida todos da família caíram em profundo sono. Eles dormiram, dormiram, dormiram Eles dormiram tanto que acordaram com uma fome gigantesca. Aí não tiveram outra solução: eles comeram mangaba, comeram mangaba, comeram mangaba. Todos sabem que mangaba dá muito sono, não é? Por isto mesmo, logo em seguida todos da família caíram em profundo sono. Eles dormiram, dormiram, dormiram Eles dormiram tanto que acordaram com uma fome gigantesca. Aí não tiveram outra solução: eles comeram mangaba, comeram mangaba, comeram mangaba…


Muito atraído por este tipo curto de história criei algumas poucas:

Irerê, guerreiro tupi (versão para o Brasil de uma história sem fim)

Irerê, guerreiro Tupi, depois de muito andar e correr, pela mata, sentou-se à sombra de uma imensa árvore para descansar. Acabou adormecendo e como é comum aos guerreiros, sonhou com Tupã, batalhas e caçadas, lutas e conquistas. Foi bruscamente acordado pelo alvoroço que a ave de olhos de fogo fez ao passar pela respeitável árvore. Irritado, Irerê tentou fechar o animal. Tendo errado o alvo, saiu o guerreiro a procurar aquela flecha arremessada, que era a sua última. Depois de muito andar, tendo achado a flecha, Irerê, guerreiro Tupi, sentou-se à sombra de uma imensa árvore para descansar. Acabou adormecendo e como é comum aos guerreiros, sonhou com Tupã, batalhas e caçadas, lutas e conquistas. Foi bruscamente acordado pelo alvoroço que a ave de olhos de fogo fez ao passar pela respeitável árvore. Irritado, Irerê tentou flechar o animal. Tendo errado o alvo, saiu o guerreiro a procurar aquela flecha arremessada, que era a sua última. Depois de muito andar, tendo achado a flecha, Irerê, guerreiro Tupi, sentou-se à sombra de uma imensa árvore para descansar. Acabou adormecendo e como é comum aos guerreiros, sonhou…

______________________________________________________________________________________________________________-

O Camelo – fim numa história sem fim

Um camelo muito velho foi abandonado por seu dono no deserto. Passou, assim, a vagar perdido pelas quentes dunas de areia. Vagou por muito tempo e a sede o consumia, até que, num momento, viu ou pensou ver adiante um verdejante oásis. Sentiu que não estava mais perdido. Apressou seus vacilantes passos e alcançou o mais belo oásis jamais imaginado. Provou sem sofreguidão a água mais fresca e límpida do mundo. Depois, comeu da mais verde erva e, por fim, deitou-se, à moda dos camelos, à sombra de altas tamareiras.

Ali, naquele oásis, com a sede e a fome saciadas, dormiu um sono profundo.

Dormiu e sonhou.

O velho camelo sonhou que fora abandonado por seu dono no deserto. Passou, assim, a vagar perdido pelas quentes dunas de areia. Vagou por muito tempo e a sede o consumia, até que, num momento, viu ou pensou ver adiante um verdejante oásis. Sentiu que não estava mais perdido. Apressou seus vacilantes passos e alcançou o mais belo oásis jamais imaginado. Provou sem sofreguidão a água mais fresca e límpida do mundo. Depois, comeu da mais verde erva e, por fim, deitou-se, à moda dos camelos, à sombra de altas tamareiras.

Ali, naquele oásis, com sede e fome saciadas, dormiu um sono profundo.

Dormiu e sonhou.

O velho camelo sonhou que fora abandonado por seu dono no deserto. Passou, assim, a vagar perdido pelas quentes dunas de areia. Vagou por muito tempo e a sede o consumia…

_____________________________________________________________________________________________________________________

Sonhos Repetidos

Entrei pela cabana adentro. Deitei em um catre de palha junto à única janela aberta. Olhei por ela e vi os grossos pingos de chuva caírem.

Cansado, adormeci. Enquanto dormia sonhei que andava sobre a neve em busca de pistas e sinais. Sonhei em seguida ser um investidor predador em Wall Street com sérios problemas familiares. Fui depois, ainda em sonho, aviador da Lufftwaf bombardeando Aberdeen até ser derrubado no mar do Norte. Subitamente trabalhava em minas de carvão na China e não entendia as ordens que me eram dadas. Em seguida fui cruzado morto por ordem de Saladino. Vivi, ainda, como mulher com muitos filhos, em densa floresta em Sumatra. Cansado, acordei.

Acordei espantado de tantos sonhos.

Era noite.

Bibi um copo d’água que estava sobre uma mesa que não estava ali antes.

Tentei ler algumas páginas de um misterioso livro, mas este caiu de lado enquanto eu entrava novamente no mundo dos sonhos.

Sonhei que andava numa floresta silenciosa. Chovia.

Não sei o que fazia eu ali naquela floresta. Estava perdido, com vontade de mais me perder ainda. Andei muito, sem dificuldades, apesar da chuva. Aquilo só podia ser mesmo um sonho.

Eu encharcado andava sem rumo. O cheiro de resina vegetal me embriagava e se isto foi um sonho, foi um sonho calmo e bom. A floresta era acolhedora.

De repente, no sonho, me vi diante de uma choupana que tinha a porta aberta.

Entrei pela cabana adentro. Deitei num catre de palha junto à única janela aberta. Olhei por ela e vi os grossos pingos de chuva cair.

Cansado, adormeci. Enquanto dormia sonhei que andava sobre a neve em busca de pistas e sinais. Sonhei em seguida ser um investidor predador em Wall Street com sérios problemas familiares. Fui depois, ainda em sonho, aviador da Lufftwaf bombardeando Aberdeen até ser derrubado no mar do Norte. Subitamente trabalhava em minas de carvão na China e não entendia as ordens que me eram dadas. Em seguida fui cruzado morto por ordem de Saladino. Vivi, ainda, como mulher com muitos filhos, em densa floresta em Sumatra. Cansado, acordei.

Acordei espantado de tantos e repetidos sonhos.

Era noite.

Bibi um copo d’água que estava sobre uma mesa que não estava ali antes.

Tentei ler algumas páginas de um livro, mas este caiu de lado enquanto eu entrava novamente no mundo dos sonhos.

Sonhei que andava numa floresta silenciosa. Chovia.

Não sei o que fazia eu ali naquela floresta. Estava perdido, com vontade de mais me perder ainda. Andei muito, sem dificuldades, apesar da chuva. Aquilo só podia ser mesmo um sonho.

Eu encharcado andava sem rumo. O cheiro de resina vegetal me embriagava e se isto foi um sonho, foi um sonho calmo e bom. A floresta era acolhedora.

De repente, no sonho, me vi diante de uma choupana que tinha a porta aberta.

Entrei pala cabana adentro. Deitei num catre de palha junto à única janela aberta. Olhei por ela e vi os grossos pingos de chuva caírem.

O mosteiro dos infinitos Budas

Sou perseguido e corro. Atravesso correndo mais uma sala de orações. O Buda no altar parece impassível e a cor dourada resplandece, quase cega, refletindo milhares de velas. Mas não tenho tempo para contemplações (aliás, nunca tive) e corro. Corro o mais que posso.

Saio da imensa sala e atravesso o pátio decidido, mas o medo me constrange. Entro apressado em outra sala, com outro grande Buda no altar.

Arrependo-me do muito mal que pratiquei, mas agora é tarde, e meus perseguidores são numerosos. A perseguição é implacável, tão implacável quanto eu fui com meus inimigos.

Atravesso outro pátio com árvores altas e flores vermelhas que desconheço. As portas de bronze estão todas abertas. Há muitas portas para escolher. Não escolho, apenas corro. Entro em mais uma sala de orações. Estarei sonhando? Estas salas todas parecem idênticas umas as outras.

O suor escorre por todo meu corpo. Meu coração bate disparado. Posso ouvir os passos apressados de meus perseguidores.

Outra sala. Outro Buda. Outro pátio. O mosteiro é imenso. Parece infinito. Mais uma sala e mais uma. Quantas mais? Estarei louco ou perdido em um sonho com mil Budas? Será este meu castigo? Escapar e não escapar! Quantas salas mais? Quantos pátios? Quantos mais!?

Sou perseguido e corro. Atravesso correndo mais uma sala de orações. O Buda no altar parece impassível e a cor dourada resplandece, quase cega, refletindo milhares de velas. Mas não tenho tempo para contemplações (aliás, nunca tive) e corro. Corro o mais que posso.

Saio da imensa sala e atravesso o pátio decidido, mas o medo me constrange. Entro apressado em outra sala, com outro grande Buda no altar.

Arrependo-me do muito mal que pratiquei, mas agora é tarde, e meus perseguidores são numerosos. A perseguição é implacável, tão implacável quanto eu fui com meus inimigos.

Atravesso outro pátio com árvores altas e flores vermelhas que desconheço. As portas de bronze estão todas abertas. Há muitas portas para escolher. Não escolho, apenas corro. Entro em mais uma sala de orações. Estarei sonhando? Estas salas todas parecem idênticas umas as outras.

O suor escorre por todo meu corpo. Meu coração bate disparado. Posso ouvir os passos apressados de meus perseguidores.

Outra sala. Outro Buda. Outro pátio. O mosteiro é imenso. Parece infinito. Mais uma sala e mais uma. Quantas mais? Estarei louco ou perdido em um sonho com mil Budas? Será este meu castigo? Escapar e não escapar! Quantas salas mais? Quantos pátios? Quantos mais!?

Sou perseguido e corro…

O famoso ciclo é uma história sem fim

Fui erva. Fui leite. Fui queijo e fui suor. Fui gás. Fui gota. Fui chuva. Fui mar. Fui baleia e fui tubarão. Fui salgada. Fui doce. Fui quente e fui fria. Habitei o claro e habitei o escuro. Habitei o raso e habitei o profundo. Habitei o alto e habitei o baixo. Estive no feio e estive no bonito. Estive em pernas e cavernas, em fendas e flores. Habitei corpos e deles fluí para outros. Fui gente. Fui bicho. Fui sangue sobre a pedra. Fui. Não apenas uma, mas muitas vezes. Fui erva. Fui leite. Fui queijo e fui suor. Fui gás. Fui gota. Fui chuva. Fui mar. Fui baleia e fui tubarão. Fui salgada. Fui doce. Fui quente e fui fria. Habitei o claro e habitei o escuro. Habitei o raso e habitei o profundo. Habitei o alto e habitei o baixo. Estive no feio e estive no bonito. Estive em pernas e cavernas, em fendas e flores. Habitei corpos e deles fluí para outros. Fui gente. Fui bicho. Fui sangue sobre a pedra. Fui. Não apenas uma, mas muitas vezes. Fui erva. Fui leite. Fui queijo e fui suor. Fui gás. Fui gota. Fui chuva. Fui mar. Fui baleia e fui tubarão. Fui salgada. Fui doce. Fui quente e fui fria. Habitei o claro e habitei o escuro. Habitei o raso e habitei o profundo. Habitei o alto e habitei o baixo. Estive no feio e estive no bonito. Estive em pernas e cavernas, em fendas e flores. Habitei corpos e deles fluí para outros. Fui gente. Fui bicho. Fui sangue sobre a pedra. Fui. Não apenas uma, mas muitas vezes. Fui erva. Fui leite. Fui queijo e fui suor. Fui gás. Fui gota. Fui chuva. Fui mar…

2 Respostas to “Histórias circulares – histórias sem fim”

  1. O máximo!!! Adorei!!!!!1

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: